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quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Mundo, mundo, vasto mundo

acho que amo essa vastidão
que não é minha
que fora de mim é tudo,
que começa quando
termina minha pele,

que é
anti-eu,
mundo.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Estávamos tão chapados e procuramos um lugar pra sentar e só. No limite da cidade, fomos até uma estação de trem que estava inutilizada há anos. Havia uns três ou quatro trens estancados lá e ninguém sequer pensava mais neles. Não havíamos comido nada o dia inteiro, mas não ligávamos, estávamos chapados e felizes com nossa própria companhia.

Sentei em um vagão aberto. O lugar que estávamos era um morro que, dependendo de como você olhasse, era possível ver toda a cidade de lá de cima. Todas as luzes e tudo funcionando regularmente. Parei pra olhar a mata que crescia em torno de todo aquele canto. As folhas estavam amarelas e havia vários besouros por lá. Clara ainda estava rodando o lugar, procurando um canto agradável pra acender seu cigarro de palha. Continuei olhando fixamente para a mata e, Deus, como eu estava chapado. 

Foi quando eu tive a chance de ver uma das cenas mais bizarras que toda a natureza já viu. Na minha frente um sapo começou a pular freneticamente em círculos enquanto dois besouros pairavam em cima dele e quando o sapo se aquietou os dois besouros o prenderam na tentativa de o matar. Dois besouros pequenos matando um sapo enorme. Eu me sentia em um rodeio, era a platéia daquela carnificina que a natureza pôs em frente aos meus olhos. Parecia que estava olhando em câmera lenta o pobre sapo morrer e eu permanecia estático, como se não pudesse nem devesse fazer nada. 

Quis chamar Clara para observar aquilo comigo mas eu simplesmente não podia. Ou não conseguia. Não foi preciso, de qualquer forma, ela veio até mim com seu cigarro já no final e olhou espantada para a cena. "Por que você não faz nada?!" perguntou. "Eu não sei, parece certo, apesar de errado". Ela ficou indignada com minha resposta simplória. Do sapo só restava os pequenos ossos. "Nunca tinha ouvido falar de besouros carnívoros" disse e olhei para ela. Ela sentou-se ao meu lado no vagão vazio e deu uma tragada que parecia infinita na sua ponta de cigarro. Ela tragava de um jeito meigo e soltava a fumaça como se estivesse em chamas por dentro. Aquilo me enlouquecia.

"Bom, acabamos de presenciar uma cena triste e incrível que jamais teremos a chance de ver de novo." Ela balançava as pernas e olhava para os besouros que ainda sobrevoavam o lugar. "E você tem certeza que só acredita mesmo em seleção natural?" me perguntou rindo; eu assenti com a cabeça. "Há coisas demais pra se acreditar. Eu provaria nesse momento que seleção natural não é tudo que você acredita". Quis que ela provasse. Ela olhou pro meu relógio e perguntou "Que horas são?", "O relógio está quebrado, uso ele porque... ah, simbólico". "Tá, então que horas você acha que devem ser agora?". Eu não fazia idéia do que ela queria com isso. "Não faço idéia, provavelmente umas cinco." Ela deu uma risada que me incomodou. "Está vendo? É claro que você acredita em outras coisas!" Não consegui entender nada e ela me entendeu e sorriu e começou uma grande conversação em que dizia que era óbvio que, partindo do pressuposto que eu entendia e conhecia as horas, os minutos e os segundos como são, eu acreditava em algo maior: o tempo. 

O tempo estava passando devagar e a noite ia, mansinha, cobrindo o dia. Eu vivia durante o dia... e durante a noite, amava.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Somos um suicídio que nasceu;
do sujo, do morto,
do pó que nasceu;

Um suicídio viciado;
que não pretende segurar demais a vida
Que não aguenta mas espera paciente
pra soltar um último suspiro;

Somos um suicídio que vive
só na espera de um momento
que se dá uma última olhada ao redor
e compartilha depois
seus ossos, sua carne, seu pó.

Somos nós,
suicidas,
viciados,
na espera
por um só momento
que poderemos nos chamar de homens
amantes,
anjos,
seja lá como for,

anti-suicidas.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Art, so itself, came silently
so true, so itself
we loved one another
silently
me and art
loving one another
kissing, sucking,
biting, devouring,
killing,
loving one another.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Tudo que sobra, afinal,
não é o amor,
não é paz,
não é remorso,
não é agonia,
não é algum sabor,
não é.

Tudo que sobra, afinal,
é um espaço

vazio

para uma propaganda.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Love, as I can feel it,
isn't about loving someone;
Love is what I give
and love is what I get back.

sábado, 28 de maio de 2011

Era um tremendo sentimento estranho. Não bastasse a aflição na mente, zunindo e arranhando a mente, era a imensa vontade de continuar do mesmo jeito que estive naqueles últimos dias. Procurei quem pudesse me ajudar, quando senão tentar apenas pensar comigo que poderia ser isso. Expliquei, por fim, a uma dessas pessoas, que já sentira aquilo, porém algo parecia estar errado; me cabia a vontade de voltar atrás e fazer diferente.

... Sempre duvidei da necessidade de pôr nome às coisas. Uma flor por acaso deixa de ser uma flor só pelo nome que tem? Comendo tempo e agonizando com meu sentimento que não me largava, finalmente cheguei. Era saudade. Saudade. Um tremendo sentimento estranho.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Ela olhou pela janela ao seu lado no carro e viu um caminhão com o slogan "Desentupidoras e cia.". Olhou pra mim, rindo, e disse:
- Sempre tem alguém que faz o trabalho sujo que você e eu não fazemos, né?
Para ela tudo estava certo. E nada disso estava certo.
Não sei bem ao certo o que "passividade" pode significar. 
Tudo que sei é que quero, antes de tudo, um tesão ardente pela vida: as gotas de suor que escorrem em mim são lágrimas que de alegria meu corpo chora.
Ora, vida, é com você mesmo que quero ficar.

Eu estou sempre nascendo.
Nunca me ocupei em morrer.

domingo, 3 de abril de 2011

Oh imagem semelhança de minha vida,
Pêndulo torto e indecidido,
Cavalga cortando ares sem rumo!

Oh pêndulo tortuoso e bandido,
Passeios pelos inferteis caminhos da despedida,
Beija os cabelos bagunçados do nosso fumo!

Goza seus filhos pelo mundo; goza!
Por olhos a plenitude do infinito erro tragado
Inveja um caminho sem ma sina que não o seu!

Arranca bravo tuas raízes desta matriz infecciosa,
brinquedos que to costume juram, juram adeus,
- Difícil é não divinizar o errado!