Tudo começou com uma grande mentira. E quem diria: a mentira, quando bem dita, quando um tanto quanto repetida, quando bem temperada e reforçada a cada dia, com o esforço e a hipocrisia de quem não quer - mas que inconscientemente deseja que sua mentira se perpetue -
se torna então uma verdade, que aos poucos se incorpora, se assimila seu conteúdo, como se fosse seu e como se sempre tivesse sido real.
A mentira, então, naturalmente se porta como uma novidade, igual àquela que originou a mentira, tornando o que não era possível de ser racionalmente vivido, em algo confortavelmente tragável.
No entanto, a mentira estrangula seu criador, aos poucos, por não ter sido criada como uma filha natural, mas como a adotada.
A mentira, assim, reaparece, hora ou outra, de cara nova, acompanhada da dor de uma descoberta frustrante, que obriga que a realidade seja tão triste; enquanto obriga que a mentira, arquitetonicamente planejada por uma vontade tão verdadeira, seja, afinal, tão bela.
sábado, 7 de janeiro de 2012
quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
A paixão, como o desejo, são estritamente egoístas. Como se houvesse uma barreira entre você, persona, e o objeto, que devesse ser abrupta e imediatamente destruída. É a vontade da posse incessante, sem razão alguma, apenas guiada pela própria existência dessa vontade. A paixão é como um ser novo que brota n'alma da gente, que está louco por devorar e se multiplicar; como um selvagem, um bruto.
O amor, porém, é o sentimento divino. É todo classe e requintamento: o amor surge com a paz e a razão, e não pretende se apossar do objeto amado. Muito pelo contrário, o amor é o nível em que se alcança a liberdade suprema, em benefício próprio e de outrem. O amor não pretende se não cuidar, adorar e admirar.
O mais perfeito da Natureza é que ela, apesar de nos ter feito bichos, plantou para germinar, em cada homem, a semente do amor, que nos separa do nível da bestialidade e nos aproxima um pouco mais dos deuses.
O amor, porém, é o sentimento divino. É todo classe e requintamento: o amor surge com a paz e a razão, e não pretende se apossar do objeto amado. Muito pelo contrário, o amor é o nível em que se alcança a liberdade suprema, em benefício próprio e de outrem. O amor não pretende se não cuidar, adorar e admirar.
O mais perfeito da Natureza é que ela, apesar de nos ter feito bichos, plantou para germinar, em cada homem, a semente do amor, que nos separa do nível da bestialidade e nos aproxima um pouco mais dos deuses.
segunda-feira, 26 de dezembro de 2011
Poeta.
O poeta não vive apenas da linguagem elevada, como diz o senso comum.
O poeta é tão humano quanto o médico, o advogado e o economista.
O poeta guarda suas emoções e as vezes a solta e chora, gritando por dentro o nome da mãe.
O poeta também já foi criança e também roubou um pedaço do bolo de laranja da vó,
Já brincou de carrinho e já disse umas péssimas no ouvido da namorada.
O poeta já quis pular de pára-quedas
e o poeta também já desejou ter grana demais nos bolsos pra passar as férias em Marseille.
O poeta já bebeu demais e vomitou no vaso da planta preferida da mãe do amigo do poeta.
Ah! inóculos olhos prisioneiros,
dá-nos algum remédio que nos cure dos preconceitos,
para agarramos de vez estas flores que nasceram no concreto!
O poeta, amigo, escarra!
O poeta é você, mijando no meio da rua!
O poeta perdeu a passagem e ficou esperando o trem de depois!
O poeta somos nós, a todo momento, em cada vão instante!
Mas sabe bem o poeta, que só a arte salva.
O poeta não vive apenas da linguagem elevada, como diz o senso comum.
O poeta é tão humano quanto o médico, o advogado e o economista.
O poeta guarda suas emoções e as vezes a solta e chora, gritando por dentro o nome da mãe.
O poeta também já foi criança e também roubou um pedaço do bolo de laranja da vó,
Já brincou de carrinho e já disse umas péssimas no ouvido da namorada.
O poeta já quis pular de pára-quedas
e o poeta também já desejou ter grana demais nos bolsos pra passar as férias em Marseille.
O poeta já bebeu demais e vomitou no vaso da planta preferida da mãe do amigo do poeta.
Ah! inóculos olhos prisioneiros,
dá-nos algum remédio que nos cure dos preconceitos,
para agarramos de vez estas flores que nasceram no concreto!
O poeta, amigo, escarra!
O poeta é você, mijando no meio da rua!
O poeta perdeu a passagem e ficou esperando o trem de depois!
O poeta somos nós, a todo momento, em cada vão instante!
Mas sabe bem o poeta, que só a arte salva.
Estava sentindo agudas dores de estômago pela desconexão com uma alteridade em particular. Era o amor que nutria, absurdo e secreto, por um moço loiro mediano.
terça-feira, 13 de dezembro de 2011
O bruto, nos tempos modernos, deixou de ter um falo e um estômago apenas. O bruto tem, hoje, um bolso e uma mão fechada. Mas o que fica no bruto e que não muda é sua irremediável vontade de apropriar tudo para si mesmo, sem pecar pela prontidão dos ponteiros, nem a concessão do espírito humano. O bruto é um bicho, enfim, que acredita que a liberdade alia-se à posse e ao poder, sem a disciplina e aplicação do conhecimento.
sexta-feira, 2 de dezembro de 2011
Não falem comigo.
De repente Ele
Chegou. Me
viu sentar nos cantos obtusos
e selvagens de lugares à meia-luz,
só,
e me ofereceu um gole de jazz,
um pedaço de cigarro
Deitou na minha cama,
me chamou devagar.
De repente. Me
abriu as portas dos bares familiares,
que me ofereciam cuidados mentais
e me levou a passear
mãos e peitos unidos,
Deitou na minha cama,
me chamava para amar.
Não falem comigo.
Há pouco. Me
Deitei a cabeça no buraco de um peito amigo
troquei o sentimento do mundo
por tudo que não tem sentido
Chamei-o de meu lar,
Não falem comigo.
- Se já tens Meu beijo, de Ti
agora só espero escarrar?
De repente Ele
Chegou. Me
viu sentar nos cantos obtusos
e selvagens de lugares à meia-luz,
só,
e me ofereceu um gole de jazz,
um pedaço de cigarro
Deitou na minha cama,
me chamou devagar.
De repente. Me
abriu as portas dos bares familiares,
que me ofereciam cuidados mentais
e me levou a passear
mãos e peitos unidos,
Deitou na minha cama,
me chamava para amar.
Não falem comigo.
Há pouco. Me
Deitei a cabeça no buraco de um peito amigo
troquei o sentimento do mundo
por tudo que não tem sentido
Chamei-o de meu lar,
Não falem comigo.
- Se já tens Meu beijo, de Ti
agora só espero escarrar?
segunda-feira, 28 de novembro de 2011
Escrever sobre o amor!
Vamos escrever sobre o amor,
sobre nossos melodramas diários,
sentimentos doentes e contagiantes!
Vamos escrever um imenso livro sobre o amor!
E ainda!
Vamos lê-lo para sempre!
Vamos? O amor é tão fácil, tão sedutor!
Vamos escrever sobre os travesseiros molhados, sobre os carteiros mal-amados, sobre os meninos que buscam o que há debaixo da saia!
Amor!
Sim: mas antes de escrever sobre o Amor,
Com dificuldade
retiro- me da minha posição de amante,
Desse modo O enxergo de longe
Mesmo que assim fique repleto de dor por estar longe do sentimento do mundo,
Mas finalmente posso admirar sua verdadeira beleza.
Os amantes não sabem o quanto os poetas os acham maravilhosos.
Vamos escrever sobre o amor,
sobre nossos melodramas diários,
sentimentos doentes e contagiantes!
Vamos escrever um imenso livro sobre o amor!
E ainda!
Vamos lê-lo para sempre!
Vamos? O amor é tão fácil, tão sedutor!
Vamos escrever sobre os travesseiros molhados, sobre os carteiros mal-amados, sobre os meninos que buscam o que há debaixo da saia!
Amor!
Sim: mas antes de escrever sobre o Amor,
Com dificuldade
retiro- me da minha posição de amante,
Desse modo O enxergo de longe
Mesmo que assim fique repleto de dor por estar longe do sentimento do mundo,
Mas finalmente posso admirar sua verdadeira beleza.
Os amantes não sabem o quanto os poetas os acham maravilhosos.
Um Bruto
Sou poeta e dono de dois mundos.
Tenho a definição exata de poesia
e guardo-a no bolso rasgado da calça.
Sou poeta, torto, desgrenhado,
Minhas linhas são todas erradas.
Sou poeta,
dono absurdo de pequenos insetos
de às vezes duas ou três patas
um viveiro de palavras.
Sou poeta,
esclarecedor do mundo, o iluminismo
da existência:
flor, borboleta sem asas;
mel, aguardente das abelhas;
poesia, ópio do alterego humano.
Sou poeta,
bêbado mal-vestido que adotou
uns bares que não tem dinheiro para comprar cadeiras,
bebo em pé nos balcões das dores do mundo
as gotas revolucionárias de uma ditadura mental.
Sou um animal!
O pior deles, não tenho razão,
sou um absurdo mesológico
Não aguento nada que me é oferecido,
devoro grotescamente carnes mal-amadas
e ando de bonde em bonde com o umbigo
nu,
Sou um animal e sou o pior deles!
Sou dono de dois mundos
e um deles não me quer:
Eu sou poeta, sou irracional, medonho,
medroso, torto, errado: bruto.
Tenho a definição exata de poesia
e guardo-a no bolso rasgado da calça.
Sou poeta, torto, desgrenhado,
Minhas linhas são todas erradas.
Sou poeta,
dono absurdo de pequenos insetos
de às vezes duas ou três patas
um viveiro de palavras.
Sou poeta,
esclarecedor do mundo, o iluminismo
da existência:
flor, borboleta sem asas;
mel, aguardente das abelhas;
poesia, ópio do alterego humano.
Sou poeta,
bêbado mal-vestido que adotou
uns bares que não tem dinheiro para comprar cadeiras,
bebo em pé nos balcões das dores do mundo
as gotas revolucionárias de uma ditadura mental.
Sou um animal!
O pior deles, não tenho razão,
sou um absurdo mesológico
Não aguento nada que me é oferecido,
devoro grotescamente carnes mal-amadas
e ando de bonde em bonde com o umbigo
nu,
Sou um animal e sou o pior deles!
Sou dono de dois mundos
e um deles não me quer:
Eu sou poeta, sou irracional, medonho,
medroso, torto, errado: bruto.
sexta-feira, 28 de outubro de 2011
Ai!, ora
Como quero um pouco de monotonia
um pouco a mais de tempo
Um pouco de tédio pros ponteiros
do meu relógio de pulso!
Suplicaria por menos abas
menos janelas
menos amores
Não quero mais esse caos
Quero que o sangue dentro de mim tenha mais calma
Meu coração para bater mais devagar...
Tire de minha frente essa coca e esse café!
Canso e agito.
Quero ver a vida devagar
Quero notar e notar e notar a vida passando
Bem devagarinha
Em frente e dentro de mim!
Se ao menos tivessemos mais tempo
como diria o poeta - poderiamos fazer
uma poesia direita
nossos versos nao seriam mais belos,
seriam inteiros
não seriam qualquer anotação fosca
cópia esdruxula de nossos amantes
seria redonda e aguda
como nossos desesperados sentimentos
Quero a vida devagar;
Dê-me a triste vida perpétua dos poetas!
Quero uma tarde inteira e um verso de uma palavra
Chega, BASTA! a esse caos que alimenta minha apatia
Quero a vida tão devagarinha...
Como quero um pouco de monotonia
um pouco a mais de tempo
Um pouco de tédio pros ponteiros
do meu relógio de pulso!
Suplicaria por menos abas
menos janelas
menos amores
Não quero mais esse caos
Quero que o sangue dentro de mim tenha mais calma
Meu coração para bater mais devagar...
Tire de minha frente essa coca e esse café!
Canso e agito.
Quero ver a vida devagar
Quero notar e notar e notar a vida passando
Bem devagarinha
Em frente e dentro de mim!
Se ao menos tivessemos mais tempo
como diria o poeta - poderiamos fazer
uma poesia direita
nossos versos nao seriam mais belos,
seriam inteiros
não seriam qualquer anotação fosca
cópia esdruxula de nossos amantes
seria redonda e aguda
como nossos desesperados sentimentos
Quero a vida devagar;
Dê-me a triste vida perpétua dos poetas!
Quero uma tarde inteira e um verso de uma palavra
Chega, BASTA! a esse caos que alimenta minha apatia
Quero a vida tão devagarinha...
quinta-feira, 27 de outubro de 2011
A Arte não se contenta com sua plena existência. Ela é um enorme auto-falante que implora para ser escutada. Mas não apenas: quer ser apalpada, degustada, cheirada profundamente. Ela suplica por orgias e não se aborrece com nada. Porque arte é o aborrecimento e o desejo. É o motor humano.
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