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sexta-feira, 7 de junho de 2013

De amor, tivemos pouco.
Mas longe de inatingíveis,
Fomos amantes sensíveis.

Quiçá foi só uma boa razão
Pra pensar no que escrever...

quarta-feira, 24 de abril de 2013

A Rosa do Povo,
café meio amargo meio aguado
uma barata coxa
Estive em Lisboa e Lembrei de Você
a vida é poesia.

Quem nunca viu olhos de ressaca
mire bem no cristalino de Francisco Buarque

A vida é poesia.
A Rosa do Povo,
café meio amargo meio aguado
uma barata coxa
Estive em Lisboa e Lembrei de Você
a vida é poesia.

Quem nunca viu olhos de ressaca
mire bem no cristalino de Francisco Buarque

A vida é poesia.
E sentado na cadeira de ontem
Te vi sair por aquela porta.

Hoje sei te definir
Melhor do que ontem.

Tu és questão de tempo.

Porque se ontem
Tu foste questão de tempo
Pra te ganhar

Hoje,
És questão de tempo
Pra te esquecer.
A menina
Abre sua porta
E pergunta
Se havia alguém

Ao que o Silêncio
Solitário e incrédulo

Responde
Que sim.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Quero um cigarro.
Quero vários cigarros.

Oh, for God sake, um cigarro.

Um cigarro e arte
prá anestesiar

esse calor.


Boa sorte
e me traz mais um cigarro.


O mundo, por si,
não existe 
movido à razão

Então me vê mais um cigarro.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Não faço isso como uma afronta a ninguém, mas confesso que gosto de, por pura estética simbólica, deixar a Bíblia Sagrada entre O Anticristo, de Friedrich Nietzsche, e alguns livros de Ciências Biológicas.

Não tenho partido. Quem sabe o faço para apenas poder me lembrar que os tenho sob meu conhecimento e que a fé não necessariamente está dissociada da razão.

Não sou, também, ateia. Mas não faço ideia do que, em palavras, seja essa tal crença que me move. No entanto não tenho dúvidas de que está bem longe da fé cristã que moveu o espírito Cruzadista e as missões civilizatórias ao Novo Mundo.

Mas tenho em mim a certeza de que já muito mais metafísica do que nos fazem acreditar. O mundo contemporâneo, regado de ciência e pesquisas de precisão convidativa, nos faz afastar do conhecimento do além do material. E é nisso que eu não acredito: que a ciência seja a suma verdade.

Não regro minha existência ao tenho de acessível e palpável. Somos humanos. Assim como outros, somos seres complexos e dotados do que nos difere do mundo inorgânico: Vida.

Assim, eis minha retórica: o que, enfim, há de mais divino do que a Vida?

O que faço do divino me leva apenas a algo que eu, por opção, procuro não definir, mas apenas uso como instrumento que, em definitivo, molda meu caráter. O divino enfim me torna humana. Porque é nisso que acredito: que precisamos ser salvos, mas não por um sopro que vem dos Céus. Precisamos ser salvos por nós mesmos, a todo instante, porque somos movidos pela nossa vontade de viver em conjunto, de estarmos bem com os outros ao nosso redor. Pela certeza que a felicidade só é real quando compartilhada.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Acordei.
Acordei e vi em mim a obra a remate da Natureza
Que me queria uma máquina.
E assim de máquina eu me fiz.

Fim da união singela dos pares opostos e necessários,
Filho das mãos da Evolução
É o que sou.
Rascunhado no meu íntimo
Codificado com tanta destreza:
Desafiei Gribbs.
Eu sou a ordem que se impõe ao caos.

A coordenação perfeita dos membros,
A harmonia exata entre minha pele e os céus!
O círculo tão preciso de DaVinci,
Eu sou enfim a delicadeza do exíguo, que me fez frágil
porém completo.

Mas pelo tanto de energia invariável
que me circula
e que me fez um Homem,
pago o preço do divino:
Aprisiono em mim, amarrado em cordas justas,
um único motor vivo
A que chamei de coração.

Sem ele sou máquina,
Por ele, sou Humano.

sábado, 31 de março de 2012

Nada Fora do Normal

“Limiotara”. A palavra estava grafada no papel amarelado, seguida de alguns termos médico-científicos e carimbada pelo psiquiatra o qual consultava há anos. A partir daquele momento, sua vida, que tanto insistira em pontuar como “normal”, seria tratada como uma nova patologia.
“Sou um rato de laboratório”, pensou Henrik, enquanto saia do consultório e tomava o caminho para sua casa. Talvez não estivesse totalmente errado.
O que se seguia é que Henrik tinha alguma fixação fora do normal por transpor limites, o que seus parentes não tardaram a perceber quando, pela primeira vez quando criança, inventou um jeito criativo de se agarrar ao ventilador de teto enquanto este estava em funcionamento. Mais tarde, com sua primeira namorada, quis provar o quanto a amava atravessando a cidade apenas de cueca, em um inverno russo, só para vê-la. E o escândalo mais recente, e também mais preocupante, ocorreu quando, já mais velho e com seu conceito de limites já amadurecido, apostou sua sogra em um jogo de poker.
No entanto, o que tanto interessava aos médicos era o fato de que Henrik era psicologicamente muito seguro e possuia um otimismo que o impedia de ver os verdadeiros perigos em que se colocava. Os médicos queriam saber que parte de seu cérebro funcionava de forma anormal, para, quem sabe, desenvolver mais um remédio contra a depressão. Para isso, teria de se submeter a diversos experimentos contra sua vontade, em que teria que enfrentar altos riscos, enquanto os médicos analisavam seu cérebro em um computador.
Henrik sabia de tudo isso. E tudo o que mais queria era poder voltar a se chamar de normal. Pela primeira vez em sua vida, sentia medo. Mal conseguiu atravessar a rua: os carros buzinaram enquanto ele passava. Talvez se ninguém tivesse colocado no papel... não conheceria a malícia. Não conheceria os verdadeiros interesses por trás daqueles óculos dos médicos. Não sentiria como a aldeia global realmente o quer - dentro de um laboratório, servindo-a. Talvez enfim não teria conhecido a realidade. Era um homem agora feito das unhas de Platão.
Mas quem sabe a vida tenha seu próprio jeito de se curar. Henrik teve um surto em que sentiu sua vida voltar aos eixos. Olhou tudo ao seu redor e sabia que nada estava tão mal. Finalmente chegou em casa e cumpriu o que julgava ser o correto a fazer. Entrou na garagem. Seu carro parecia que estivera sempre lá a serviço de suas vontades, mas hoje ele o via como um verdadeiro amigo. Não teve dúvidas. Entrou no carro.


Não havia nada fora normal para Henrik. Meia hora mais tarde, chegava uma ambulância na esquina de sua rua para tirá-lo do carro, brutalmente amassado contra um muro. Henrik estava morto e não havia nada fora do normal.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Fechou o livro. Percorreu uma última vez as singelas palavras que marcavam a contra-capa e soltou a respiração por um breve momento. Guardou seu marca-páginas na gaveta embaixo da mesa. Aquele gesto significava que mais um percurso, se não acabava, tinha seu caminho já desenhado para o fim. Estava pronta. Depois de meses preenchidos com dias devagar, horas pesadas e minutos arrastados, tinha em si que estava pronta. Levantou-se da cadeira , apoiando os dedos do pé no chão e se espreguiçou demoradamente, na tentativa de expulsar a tensão que aprisionava seu corpo. Olhou mais uma vez para a pilha de livros que, numa inércia contente, repousavam sobre sua mesa. Tinham sido enfim boas companhias, os livros; mas não era de todo o mal vê-los todos lidos: suas vidas úteis terminavam agora. Colocou a bolsa desbotada no ombro e seguiu em direção ao corredor.

Porém antes mesmo de começar a descer as escadas, percebeu a agitação que vinha da cozinha. A irmã alertava ao pai que tinha urgência de estudar para uma prova. Passou pela porta e olhou para ambos. "Estou de saída." Ao que o pai mordeu os lábios e arregalou os olhos, como se subitamente tivesse lembrado de algo que flechou sua memória. O estado de saúde de seu pai não era dos melhores e há pouco tempo atrás, começaram a investigar o que era aquela doença que o fazia ter ataques repentinos de tosse. "Não vai dar", sussurrou com tristeza, "minha consulta é agora. Você terá de ficar com sua irmã".

Sua irmã era um tipo ímpar; desde muito pequena, sofria de ataques de pânico quando ficava sozinha: tinha alucinações com assassinatos e grandes sequestros, o que os pais consideravam como muito grave, apesar de nunca terem tentado buscar uma solução em algum método terapêutico. O que faziam era nunca deixá-la sozinha, com a certeza de que o não-enfrentamento da situação poderia resultar em seu esquecimento. Ilusão.

Olhou para a irmã que estava perturbada. Ela sabia que a situação acabara de gerar um desconforto geral: a irmã mais velha tinha uma prova de admissão, para qual havia estudado tortuosos meses, e o pai havia marcado sem más intenções uma consulta emergencial no mesmo horário. De repente se sentiu encurralada e uma breve emoção esquentou a parte de trás de seus olhos. Abriu a boca querendo falar, mas o pai perguntou antes "Você vai ficar, não?". Era um absurdo russo a situação em que se encontrava e de repente sentiu seu mundo se apequenar e uma breve raiva se apoderou de sua mão direita, que empurrou a porta contra a parede, causando um barulho tremendo. O gato do vizinho berromiou. "NÃO POSSO! Eu..." sua voz tremeu e a boca tinha uma temperatura quente. A garganta implorava pra que a soltassem. O pai engoliu o berro da filha, "Não tenho culpa. Você fica". Era um pai negligente partidário. E ela sabia que o partido dele com certeza não era o dela. "É CLARO que é sua! Você sabia!" virou-se para a irmã, "E por que você não cresce LOGO?". Assustaram-se. Em verdade, ela também se assustou e recuou um passo para trás. Sabia o que estava por vir. O pai direcionou-se a ela, parando em sua frente. Tirou o chinelo dos pés.

Subiu em direção ao seu quarto com passos tão pesados que toda a escada parecia se deformar diante de seus olhos. Estava completamente atordoada. Sua bochecha esquerda ardia e tinha um pouco de terra. Passou a mão em seu rosto e soltou um pequeno chiado, como quisesse ela mesma tentar se acalmar. "Mais uma vez". Duas lágrimas sincronizadas largaram seus olhos, carregando um pouco da sujeira que tinha em seu rosto. Não queria, mas já estava aos prantos. O queixo tremia. Os braços se entrelaçaram, como se precisasse de seu próprio abraço amigo. Não conseguia respirar. Soluçou e chiou. "Calma, calma". A verdade é que aquela situação, em adversos contextos, parecia não deixar de se repetir. Que calma que é cura para um male de compaixão? Acalmou-se. Olhou para o relógio em cima da pilha dos livros. Dizem que tanto o riso quanto o sofrimento começam pela quebra de uma expectativa tensa e são a última tentativa do corpo de alívio emocional. Mas de que havia de rir, se a cada tiquetaquear do relógio, sua expectativa se dobrava num desespero tão pouco gracioso?


E dos males humanos, não há mal mais belo que os próprios laços humanos, ainda que seja deles o mais triste. Que o mal do laço não é quando se estreita, quando está bem firme e numa perfeita harmonia, mas sim quando se solta e o perde sua função: quando tudo que mais se quer é que, afinal, desamarremo-nos e  percamo-nos a sós no Universo de nosso íntimo.